Uma palavra que defina o Encontro de Escritores de Expressão Ibérica Correntes d’ Escritas.
Ao longo dos últimos 19 anos, muito foi dito e escrito sobre o Festival. Outro tanto terá, certamente, ficado por dizer e por escrever. Até porque há coisas, sabemos todos, que não se dizem. Muito menos se escrevem.
Ai se as paredes falassem! O ar que respiram as Correntes da Póvoa!
Nas imensas conversas que fui mantendo com convidados, participantes, jornalistas, “acorrentados” e desacorrentados havia sempre uma palavra ou outra que ressaltava dos diálogos. Ditas pelos próprios ou escutadas por eles nos lugares mais diversos de geografias dispersas do globo.
As Correntes, como é mais conhecido o Encontro, são tema de conversa em muitos outros festivais, feiras do livro, congressos, encontros, em Portugal e no mundo. Nos vários continentes. Basta para isso que se encontrem dois participantes nas Correntes. Bastam dois. E logo a mensagem chega a outros.
As Correntes foram passando. De boca em boca. Por muitos lugares.
Em fevereiro, na Póvoa de Varzim, “um pedaço de utopia é possível”, escreveu Lídia Jorge num depoimento que não consigo localizar no tempo nem no espaço, ou não fosse eu desorganizada (sei que ninguém leva a sério este meu desabafo!). A mensagem foi-se espalhando e o público acreditando. E todos acabamos por nos deixarmos convencer, ano após ano, ainda assim a custo, de que as Correntes são assunto sério. Sério e levado a sério.
De facto, depressa se encheram salas e as salas maiores foram encolhendo. E os adjetivos, substantivos, verbos, enfim, palavras, crescendo.
Recusei-me sempre a acreditar em tudo o que me diziam. Como se não entendesse que uma iniciativa planeada, organizada, realizada com entrega total e absoluta não tivesse de ser recebida, vivida, sentida da mesma forma total e absoluta. Levei tempo a compreender. As Cor- rentes eram, afinal, uma coisa – sim coisa que é como se deve designar o que não conseguimos definir claramente – simples. Despretensiosa. Era como se todo o esforço e cansaço desaparecessem no início de cada edição e logo cedessem o seu lugar ao entusiasmo e, dessa forma, se perdesse a noção de que as coisas mais simples são, afinal, as mais complexas.
Todos sabemos, porém, que o espontâneo se planeia e que apenas flui o que se antecipa. Tudo depende do trabalho, como nos livros. Não há inspiração que nos salve!
Não é só o poeta que “Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente” (do poema “Autopsicografia” de Fernando Pessoa).
Há imprevistos, há. E muitos. Mas até esses se resolvem com maior eficácia se a equipa for instruída e preparada. Se além do coração e da emoção fizer uso da razão, com profissionalismo, responsabilidade mas também entrega. Recorrendo de novo a Pessoa, desta vez ao seu heterónimo Ricardo Reis, se cada um for “todo em cada coisa” (do poema “Para ser grande sê inteiro: nada”).
Existia em mim um medo inexplicável, ou talvez sim, de acreditar no que diziam. As Correntes eram as Correntes. Que prendem e amarram e se soltam e desprendem. Era como se, para mim, tudo o que diziam fosse tão normal que não poderia ser especial.
Mas ao longo do tempo fui entendendo que, quando repartiam esses momentos, trocas de palavras, recordações de situações aqui passadas, e lembradas fora, havia uma certa necessidade de os interlocutores trazerem o retorno de um sentimento generalizado de que as Cor- rentes eram uma experiência que tinha marcado, de alguma maneira, aparentemente especial, todos e cada um. Era como se houvesse uma inevitabilidade de partilhar o vivido.
Ao longo dos anos comecei, então, a acumular palavras. Palavras Correntes, testemunho e testamento de uma iniciativa que, tendo nascido tímida, depressa conquistou o seu espaço e fez-se história. São irrepetí- veis todos os momentos de cada ano das Correntes. Já o tempo é outro e outros os protagonistas. Fica a lembrança. Apenas a lembrança. E até essa, até um dia. Porque virá o tempo em que a própria memória se desvanecerá.
Talvez por isso – embora eu, particularmente eu, seja apologista
de uma arte efémera e inútil, de uma arte pela arte – tenha surgido esta ideia de fazer uma espécie de Dicionário Correntes. Que é uma intenção pretensiosa, pensarão muitos, esta de um dicionário. O que queríamos, contudo, era que todos os que por aqui passaram – os que quisessem participar – e que conseguíssemos contactar, uns por razões óbvias de terem partido numa viagem sem volta e outros por- que os contactos estavam desatualizados, pudessem ser testemunhas de um caminho no qual está gravada a sua pegada. O objetivo era que todos pudessem enviar uma palavra e ficcionar a sua definição.
Tentámos que não se repetissem palavras mas a determinado momen- to tornou-se impossível. Era aquela a palavra que os autores tinham escolhido. Aquela e não outra.
Era nossa intenção que todos tivessem o mesmo espaço e por isso se sugeriu o número de carateres. Mas também essa pretensão se revelou inalcançável
Como ousei pensar que, lidando há 20 anos com autores, seria possível discipliná-los? Inexperiência não terá sido propriamente. Ingenuidade, sim.
Enfim, perderam-se os limites e acabámos aceitando os verbetes com o tamanho que nos foram chegando. Afinal as Correntes são um espaço de liberdade. E, tal como Régio, cada um foi seguindo os seus próprios passos.
Resta-nos apenas pedir desculpas aos que respeitaram criteriosamen- te os trezentos carateres e elogiar a sua capacidade de síntese.
Respeitámos as escolhas, a forma, o conteúdo, a língua e as suas variantes, e a ortografia adotada por cada um.
Esta experiência não termina aqui. Quiçá poderá ser apenas o início de um despretensioso Dicionário Correntes.
Agradecemos a todos os que aceitaram o desafio.
— Manuela Costa Ribeiro