Cada Palavra é um Dicionário

As palavras enchem a nossa vida de todos os dias e, mesmo sem as articular, elas invadem o nosso quotidiano: os olhos falam, a testa e as suas rugas falam, as sobrancelhas podem dizer mais do que a boca, a cara expressa tudo o que desejamos, o corpo é mais do que palavras, é a vida toda prestes a explodir, numa torrente de significantes e significados.

As palavras enchem-nos o pensamento, o estômago e o coração e, num assomo de verdade, são expelidas numa torrente imparável pela boca.

Então, há que ordená-las, dar-lhes significado, amestrá-las ou simples- mente deixá-las “ao Deus dará”. Elas que ganhem vida própria e que vão à sua vida. Só assim poderão crescer e fazer amizade com outras da sua igualha ou de outras famílias e de outros lugares. Em vez de pertencerem a um monólogo, poderão estabelecer um diálogo, mesmo com palavras estrangeiras e com sons estranhos.

Uma palavra, despida e só, pode ser muito pobre, mas se vier acompanhada de outras ganha outro significado, pode ganhar o estatuto de literária e ser diferente diante de cada olhar.

Neste dicionário que não o é, mas que poderia ser, as palavras trans- cendem-se e elevam-se para lá da objetividade, acompanham o espírito e os sentimentos mais indecifráveis. Cada uma delas é uma história e é capaz de fazer um dicionário inspirado na sua vivência.

20 anos de palavras dá para muitos textos, dá para muitas recordações, dá para muitas conversas noturnas e madrugadoras, mesmo conversas idealistas e sonhadoras.

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Luís Diamantino
(Vereador da Cultura da Póvoa de Varzim)